Escrito por Adelaide Oliveira, em 28-02-2011 12:41 |
Numa equipa, "quem joga são os jogadores", afirma o Prof. Jorge Araújo, que durante 38 anos foi treinador de basquetebol. Hoje, treina gestores de topo, quadros médios e superiores. "O mundo das empresas só tem a ganhar se os respectivos líderes pensarem e intervirem, cada vez mais, como treinadores". Esta é uma das ideias fundamentais que o actual presidente da Team Work Consultores pretende transmitir na conferência que irá proferir, durante o 28º Encontro, em Vilamoura
Jornal Médico de Família - O que é que têm em comum uma equipa de basquetebol e uma equipa dos cuidados de saúde primários? Por exemplo, uma unidade de saúde familiar (USF) ou uma unidade de cuidados de saúde personalizados (UCSP)? Prof. Jorge Araújo - São equipas, compostas por pessoas, onde existe um líder e os respectivos membros, uma tarefa (objectivos) a cumprir, inseridas num meio ambiente muitas vezes desfavorável e pouco potenciador de um todo maior que a soma das partes. Naturalmente, cada uma dessas pessoas tem as suas expectativas e ambições individuais e precisa de relacionar-se com o todo, na procura de uma entreajuda capaz de acrescentar valor ao colectivo. Em todas as equipas que refere, a relação líder/membros apresenta enormes complexidades e dificuldades. A semelhança é enorme!
Foi treinador desportivo durante muitos anos. Agora, treina gestores de topo, quadros médios e superiores de empresas. Isso significa que a liderança de equipas é uma questão transversal a todas as áreas, incluindo a da Saúde? Fui treinador profissional de basquetebol durante 38 anos e, muito cedo, percebi que a questão mais transversal com que me confrontava (e os gestores de empresas, também), é a que se refere ao facto de, no desporto e na empresa, "quem joga são os jogadores". O mundo das empresas só tem a ganhar se os respectivos líderes pensarem e intervirem, cada vez mais, como treinadores. Hoje assumo algo mais! Ninguém gere bem (com eficácia) as suas equipas, se não for, em cada dia que passa, o treinador que todas as equipas precisam. Na realidade, gerir é treinar!
Quais são os aspectos principais da direcção de equipas, nomeadamente ao nível da mobilização e motivação, acompanhamento, definição de objectivos, controlo de execução e melhoria contínua? É possível desenvolver competências de liderança sem treino e experiência? Ninguém nasce líder, por muitas que sejam as respectivas competências e personalidade. Para liderar de forma inspiradora e mobilizadora, temos que aprender a fazer, fazendo. Ninguém é excelente como líder, sem ter percorrido o "caminho das pedras", representado na frustração de errar, ou, pior ainda, de repetir a receita que recentemente teve sucesso e falhar. Liderar pessoas e equipas requer capacidades acima da média ao nível das relações interpessoais (individuais e colectivas), de forma a conseguir que os membros das equipas que dirige se empenhem, sejam eficazes e trabalhem em equipa. Liderar é uma responsabilidade, mais do que uma competência... A responsabilidade de ser um modelo e uma referência, de ganhar a confiança dos membros da equipa que dirige, sendo honesto e frontal, coerente, competente e, acima de tudo, preocupado com aqueles que dirige ... E também a responsabilidade de ver a sua autoridade reconhecida e não imposta, a responsabilidade de servir, mais do que servir-se, etc. No que respeita à mobilização da motivação de pessoas e equipas, quem gere e lidera deve influenciar e inspirar aqueles com quem trabalha. Cerca de 80% dessa influência decorre do carácter que revela, dos valores que defende e pratica, do exemplo e referência que constitui. Só 20% tem a ver com as competências que possui para gerir conflitos e o desempenho daqueles que dirige. O sentido que atribui às suas atitudes e comportamentos e os objectivos que persegue na vida, têm uma influência decisiva. Deve, por isso, definir bem os objectivos que persegue e envolver, previamente, os membros da sua equipa nessa definição.
Que outros factores influenciam o desempenho das equipas? Acima de tudo, o constante acompanhamento, feedback e coaching aos membros das equipas por parte de quem dirige. Sem isso, tudo o que se possa querer acrescentar, perde significado!
No interior da equipa, qual é a influência das competências dos vários elementos, não apenas em termos técnicos mas também na área comportamental? Para atingir os objectivos, é imprescindível que exista, entre todos os elementos, um bom clima social? No interior de uma equipa, tudo influi sobre tudo! A melhor definição que encontrei sobre esta interacção é da autoria de Olivier Devillard no livro A dinâmica das equipas: "Uma equipa apresenta sempre uma dupla natureza, humana e operacional. É um sistema cujas leis dinâmicas e processos naturais é preciso conhecer. No interior de uma equipa verificam-se interacções constantes que requerem ser conhecidos por quem dirige, pois constituem um rico filão de recursos capazes de contribuírem para cada vez melhores resultados. O funcionamento em equipa depende da forma como for dirigida. No interior de uma equipa, tudo age sobre tudo, funciona em círculo; cada movimento resulta do que ficou para trás e é a causa do que está para a frente. A equipa centra-se na tarefa (resultados objectivos), mas nunca pode esquecer as pessoas e a mobilização da sua motivação".
Qual é o papel do líder ao nível da mobilização e motivação da equipa, definição de objectivos, controlo de execução e melhoria contínua? Fundamental, imprescindível! Sem que isso obste a que os líderes que se prezam, saibam que terão feito tanto melhor trabalho, quanto menos as equipas precisarem deles.
Afirma que, numa equipa, "quem joga são os jogadores". Ou seja, mesmo com um líder brilhante, a equipa pode não ganhar? O mundo está cheio de líderes que se julgavam brilhantes, mas as respectivas equipas nunca jogaram nada, nem ganharam nada e, pior ainda, depois de esses líderes saírem, os respectivos jogadores estavam piores que quando eles iniciaram a sua tarefa de liderança.
E ser treinador dos melhores jogadores do mundo, é ponto assente para o sucesso? Obviamente que não! Por melhores que sejam os jogadores, é sempre fundamental existir quem cuide do colectivo, observe e dê feedback, intervenha e aja sempre que necessário em defesa do interesse colectivo, comunique com impacto, seja emocionalmente convincente e ajude constantemente os membros da equipa a uma dinâmica de melhoria contínua.
Para além da energia física, mental e emocional, dá muita importância à questão da "energia espiritual". Porquê? Porque são as nossas crenças, valores, princípios, sentido e objectivos de vida, representados nessa energia espiritual, que nos impulsionam para a superação das dificuldades com que nos deparamos e para termos uma atitude positiva perante qualquer dificuldade.
Quais são os "símbolos" da liderança? Por exemplo, o que significa a expressão um treinador sempre à janela? Um treinador sempre à janela é alguém muito atento à realidade que o rodeia e que faz uma recolha constante de informação e conhecimento. Um treinador farol é aquele que sabe que em determinados momentos (quando há bom tempo), a equipa precisa de espaço e tempo para fazer o que é necessário. Um treinador helicóptero é alguém que, consoante as circunstâncias e as necessidades da sua equipa, se afasta (levanta voo) para observar o todo, ou se aproxima para ajudar nas tarefas da equipa (aterra). Um treinador espelho é aquele que aprendeu a importância de dar e receber feedback (o espelho reflecte aquilo que é, não aquilo que gostávamos que fosse).
Qual é o papel do líder em momentos de grande tensão? Consoante as circunstâncias e os contextos em que a equipa se encontra, pertence ao líder dar à equipa aquilo que ela precisa. Ora, num momento de tensão, a última coisa de que uma equipa precisa é de um treinador igualmente tenso.
Tem acompanhado a reforma dos cuidados de saúde primários, nomeadamente no que diz respeito à constituição de unidades de saúde familiar? De que modo as técnicas de coaching podem maximizar os resultados de uma equipa, com base na optimização dos seus próprios recursos técnicos e emocionais? Fazer coaching implica, antes do mais, observar a realidade e detectar se o que está a acontecer corresponde à concretização dos objectivos previamente apontados. Em seguida, reconhecer e distinguir quem faz bem e dar feedback negativo a quem faz mal, ajudando a aprender com os erros. Segue-se a facilitação de uma reflexão profunda acerca do que está a acontecer, tendo em vista a descoberta das opções possíveis para que aconteça uma melhoria contínua. Por fim, trata-se de apontar planos de acção, cuja execução tem de ser controlada periodicamente e, em caso de necessidade, corrigida. Alguém duvida que tudo isto tem muito que ver com o que se pretende que aconteça nas unidades de saúde familiar?
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